Não podemos tratar os dados de desmatamento como Bolsa de Valores

15 de Julho de 2020

 

Um programa televisivo da TV Bandeirantes noticiou na noite do dia 13 de julho que as queimadas na Amazônia estão em queda de acordo com Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Quem comenta os dados do órgão estranhamente não é um representante oficial do mesmo, mas sim Evaristo de Miranda, um comentarista do canal Agro Mais, uma variação das campanhas Agro é POP da concorrência. De acordo com ele, os dados apontam para uma queda de 23% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado, o que seria uma boa notícia, porém pouco divulgada na mídia porque “existe um vício em falar mal da Amazônia”, algo que prejudica a economia do Brasil.

No entanto, parece haver um entendimento geral no mundo todo que aquilo que prejudica não só a economia do Brasil, como também a saúde dos brasileiros, são os altos índices de desmatamento que estão batendo recordes assustadores. Como explica o vice-presidente do IDS, João Paulo Capobianco, é importante registrar que o desmatamento e as queimadas a ele associadas se mede de agosto de um ano a julho do outro. Se a medição ocorre de outro modo, não vai considerar o período de seca e fogo que é o mais crítico e pode passar a falsa impressão de que não está ocorrendo. Não devemos analisar dados em períodos diferentes destes, pois pode levar a avaliações parciais. “Se compararmos os focos de incêndios de ago/18 a Jun/19 com ago/19 a jun/20, eles são respectivamente 67.207 e 81.155, ou seja, 20,75% maior no último período. O índice de focos de queimadas de junho é altíssimo, o maior desde 2007”, disse.

Esse aumento de 20% do período de junho/20 comparado a junho/19 é preocupante de acordo com ele em função do período das secas que se inicia agora. “Realmente os dados de queimadas na Amazônia, recortados apenas no marco temporal de janeiro a junho deste ano são 23% menores do que 2019, o que não nos diz nada sobre a real situação”. No entanto, não é esse o recorte que devemos fazer quando olhamos para a destruição ambiental que está sendo promovida pelo governo. “Estamos no mês que marca o início da seca na Amazônia e é quando as queimadas se associam mais à abertura em florestas do que à tradicional limpeza de pastagem”, afirma Capobianco.

Esse é um fato que o governo federal está afoito em esconder custe o que custar. A última tentativa que comprova isso é justamente mais uma demissão que tem como objetivo justamente ocultar fatos e dados científicos, e veja só, justamente no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Na semana seguinte à divulgação de dados de desmatamento da Amazônia que contrariam o discurso do governo de Jair Bolsonaro, feito a empresários e fundos de investimento internacionais que exigem medidas eficientes de preservação do meio ambiente, a pesquisadora responsável pelo trabalho de monitoramento da devastação florestal, Lubia Vinhas, foi exonerada. Ela era coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, departamento responsável pelos sistemas Deter e Prodes, que acompanham o desmatamento da Amazônia. Curioso!

Também o portal que combate a desinformação ambiental FaKEBook.eco publicou que uma nota técnica do Ministério da Economia de Paulo Guedes ignorou o CO2 emitido por agropecuária quando quase 70% das emissões brasileiras estão no uso da terra. O dado da nota técnica não se sustenta nem mesmo quando usa o próprio governo federal como fonte. O portal apurou que de acordo com as estimativas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, disponíveis na plataforma Sirene, o Brasil teve em 2016 (último ano para o qual há dados) emissões líquidas totais de 1,3 bilhão de toneladas. Dividindo esse número por 210 milhões de habitantes, que é a estimativa do IBGE, chega-se a uma emissão per capita de 6,1 toneladas de CO2 equivalente – três vezes mais do que o informado na nota do Ministério da Economia.

Se o governo está investindo pesado em campanhas de publicidade para limpar a barra do ainda ministro Ricardo Salles junto aos investidores externos, essa cortina de fumaça não está funcionando bem. Uma mobilização inédita reuniu ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central de diversas gestões para apresentar recomendações ao governo federal no rumo de uma recuperação econômica verde no Brasil. A carta foi tema do podcast do jornal Nexo desta terça (14/07). Para os autores da carta que inclui gente como Henrique Meirelles, Armínio Fraga, Pedro Malan e Fernando Henrique Cardoso, a crise atual global gerada pela pandemia agrava ainda mais a situação do Brasil que já não pode mais ignorar suas relações profundas com as mudanças climáticas e o modelo econômico vigente até então. É, portanto, uma oportunidade para promover um desenvolvimento econômico sólido, alinhado aos objetivos nacionais e internacionais de redução de emissões de carbono. “A seriedade dos riscos físicos das mudanças climáticas e a complexidade dos riscos de transição demandam que os governos, o setor privado, a sociedade civil e a comunidade internacional se antecipem aos previsíveis impactos negativos de longo-prazo, construindo desde já uma economia de baixo carbono e, ao mesmo tempo, mais resiliente e adaptada aos desafios futuros” afirma texto da carta.

Por mais que Evaristo Miranda, nomeado “guru ambiental de Bolsonaro”, tente comemorar dados manipulados e distorcidos, não nos alegra afirmar que se o Brasil seguir ignorando as pautas socioambientais como vem fazendo desde que assumiu a nova gestão, nosso futuro comum, de incerto passará a ser devastador sob todos os pontos de vista, tanto econômico, como ambiental, eliminando nossas chances de desenvolvimento por gerações.

 

Com informações de:

Tv Bandeirantes

Estadão

Correio Braziliense

Nexo Jornal

Fakebook.eco

Manifesto “Uma Convergência Necessária: Por Uma Economia de Baixo Carbono”